Começou a Copa do Mundo e me veio a mente minha experiencia com grandes eventos. Em 2013, assumi um desafio que poucos profissionais de TI terão na carreira: garantir a prontidão operacional de tecnologia para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016™.
Esse não era um projeto corporativo comum. Era um evento com prazo imutável, visibilidade global, zero tolerância a falhas e uma força de trabalho que incluía funcionários, terceiros e voluntários de dezenas de países. Qualquer falha de TI seria vista por bilhões de pessoas.
O que aprendi naqueles dois anos moldou definitivamente minha visão sobre Governança de TI — e é o que aplico até hoje com meus clientes.
Governança não é documentação. É capacidade de resposta.
A primeira lição foi brutal: você pode ter todos os processos documentados, todos os fluxos mapeados, todas as políticas aprovadas — e ainda assim entrar em colapso no momento crítico se as pessoas não souberem o que fazer quando o inesperado acontece.
No Rio 2016™, trabalhamos com um conceito central: prontidão operacional. Não bastava que os sistemas estivessem funcionando. Era preciso que cada pessoa, em cada instalação, em cada turno, soubesse exatamente seu papel, sua cadeia de escalonamento e seu limite de decisão autônoma.
Isso é governança real. Não um manual na gaveta. Uma capacidade instalada na organização.
Escala revela o que a rotina esconde.
Em operações cotidianas, as empresas convivem com processos frágeis sem perceber — porque o volume é gerenciável, as pessoas se conhecem e os problemas são contornados informalmente.
O Rio 2016™ não permitia contornos. Eram sete áreas funcionais de TI, múltiplos parceiros internacionais, instalações distribuídas pela cidade e um cronograma que não negociava. Cada gap de processo virava um risco visível.
Foi lá que consolidei uma convicção que carrego para cada cliente: a governança precisa ser testada sob pressão, não apenas desenhada para o cenário ideal.
Quando ajudo uma empresa a implementar frameworks de gestão de riscos ou continuidade de negócios, sempre pergunto: isso funciona quando falta a pessoa-chave? Quando o sistema cai numa sexta à noite? Quando o auditor chega sem aviso?
Integração é o verdadeiro desafio — não a tecnologia.
A complexidade técnica do evento era enorme. Mas o maior desafio nunca foi tecnológico. Foi humano e processual: alinhar TI com Credenciamento, Transporte, Alimentação, Uniformes, RH — cada área com sua própria lógica, seus próprios prazos e suas próprias prioridades.
Governança de TI que olha apenas para dentro da TI é governança incompleta. A tecnologia existe para viabilizar o negócio. Isso significa que o gestor de TI precisa falar a língua do negócio, entender as dependências e construir pontes — não muros.
Essa visão integrada é o que diferencia uma consultoria técnica de uma consultoria estratégica. E é o que a Tecnologia Humana pratica há mais de uma década.
O legado que ficou
Quando os Jogos terminaram, o que ficou não foi apenas a memória de um evento extraordinário. Foi a certeza de que organizações resilientes não são aquelas que nunca enfrentam crises — são aquelas que se preparam para enfrentá-las com estrutura, clareza e capacidade de resposta.
Essa é a proposta da Governança de TI bem feita. Não conformidade pelo cumprimento de normas. Resiliência pelo desenvolvimento de capacidade organizacional real.
Se a sua empresa ainda trata governança como obrigação regulatória, talvez valha a pena repensar. O próximo “evento olímpico” da sua organização pode chegar sem aviso — na forma de um incidente de segurança, uma auditoria, uma mudança regulatória ou uma crise operacional.
A pergunta é: sua TI está pronta?